Os que Sonham...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O último Momento.


O céu já havia escurecido e as horas se arrastavam.

Através da fumaça do cigarro, Júlia olhava pela janela.

Lá de cima tudo era tão frágil.
As pessoas, os carros, a vida.

Olhou para frente e uma grande placa na sacada de uma varanda chamou-lhe a atenção.

MADAME LOLA
Tudo sobre seu futuro
Cartas, tarô, numerologia, etc.

Sentiu-se tentada em dar um “pulinho” lá, só para ver “qual era”. Será que ela acertaria alguns acontecimentos da sua vida? E o futuro, como seria?

-“Argh! Que besteira”. Pensou.

Para que saber afinal? Deixa tudo rolar.

O toque do celular fez com que ela saísse de seus devaneios. Olhou o visor, era ele.
- “Será que ele vai dizer que não vem?” – Pensou
Coração apertado, um peso no estômago, parecia que não existia o chão.

No quarto toque ela atendeu:

- Alô

- E aí está pronta?

- Sim e você? – Ela perguntou com medo da resposta.

- Estou aqui embaixo te esperando.

- Ah sim, desço num minuto.

Minuto? Voaria se pudesse.

Respirou fundo, despediu-se de Flávia, sua melhor amiga e desceu.
Quando saiu a rua, toda aquela fragilidade vista de cima voltou-se para Júlia.
Sentiu-se tão desprotegida, mas nada a faria voltar atrás. A vontade de vê-lo era maior. A saudade era insuportável.

Fazia tanto tempo...

Entrou no carro, olhou-o nos olhos e perdeu-se naquele olhar.

- “Como ele poderia ter esse poder?” Pensou.

Ela jamais conseguia dizer não diante daquele olhar azul.

-Verdes. Ele dizia.

Mas como? Será que até a cor, os olhos dele conseguiam mentir?
Azuis ou verdes, não importava, eram oceanos de promessas que certamente nunca seriam cumpridas. Ela sabia.
E toda aquela magia do momento, ela sentia no fundo da alma e tinha certeza de que ele também. Ele a queria. Ambos precisavam um do outro, mas tinham medo.

Incertezas, insegurança e outros sentimentos inexplicáveis os impediam.

- A vida sempre nos prega peças. – Júlia dizia a amiga enquanto estava na janela.

- Amiga, sai dessa, você merece algo muito melhor. Aconselhou Flávia.

Júlia sabia. Mas o que poderia ser melhor do que vivenciar aquele momento. Sentir aquela magia que existia entre os dois?


Júlia voltou a dizer à amiga.
- Amiga... Eu e ele somos almas gêmeas. Quando estamos juntos tudo é perfeito. Temos uma sintonia que poucos têm.  

O silêncio tomou conta da sala, a fumaça sumia no ar e não havia mais o que dizer para que ela voltasse atrás.
Não adiantava. Nada a faria desistir.

Júlia queria guardar o cheiro, o gosto, o toque. Queria levar consigo toda lembrança que pudesse ter.
Aqueles momentos, ela queria que fossem inesquecíveis.
Apesar de todo o amor, aquele seria o último encontro.
Ele não sabia, mas Júlia estava preparada para aquele momento.

Enquanto fitava o vazio, tirou o último cigarro do maço, amassou o papel e os seus olhos se encheram de lágrimas. Voltou - se para Flávia dizendo:

- Mas amiga, apesar disso, de sermos almas gêmeas, jamais ficaremos juntos. 
Pois nem sempre almas gêmeas ficam juntas entende? Mas só de saber que eu tenho a minha, isso me torna completa, serena e feliz. E a partir disto, eu tenho certeza que poderia fazer qualquer pessoa feliz.

Flávia a observava enquanto ela estava perdida nas lembranças, e pensava em como gostaria de ter a mesma certeza e chegou à conclusão de que não havia encontrado a tal alma gêmea. Se é que teria uma.

E quando viu Júlia sair, ficou pensando no quanto é importante saber amar. Saber separar a razão da emoção e principalmente amar a si mesmo. 

E aqueles momentos foram sim, inesquecíveis, mágicos para aqueles dois, e Júlia mostrou todo amor que podia, mesmo sabendo que nem todo amor poderia ser para sempre, mas que fosse intenso e verdadeiro enquanto pudesse durar.
Deu a ele o coração e alma. Mas aqueles momentos foram os últimos

E depois, o futuro?

Quem sabe uma consulta com Madame Lola, não possa nos responder?

                                               






85 ª  Edição Conto/História 

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