Os que Sonham...

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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Palavras escondidas.



Tantas palavras ditas... Choradas. Outras tantas escondidas na sombra que paira em teus olhos. Não as disse por orgulho, eu sei.
 E o meu orgulho, eu engulo seco, desce rasgando a garganta e embrulha-me o estômago.
Mas era preciso fazer uma última tentativa de te resgatar desse buraco, que você cavou para se esconder. Havia uma esperança de que, num minuto de bobeira tua, eu pudesse te puxar.
Sempre ouvi dizer que a esperança é a última que morre, mas a verdade é que ela não morre de teimosa mesmo!
... Cheguei mais cedo ao encontro marcado. Precisava reorganizar as idéias e controlar os sentimentos. Até parece que é tão fácil assim não é?
E foi só você chegar de mansinho, jeito distraído, que toda minha segurança ensaiada sumiu no ar. Tive a certeza de que não importa o quanto eu me prepare, você sempre vai conseguir me desmontar.
Eis uma coisa que tentei aprender contigo. A frieza. Mas confesso que não fui boa aluna.
Ainda bem!... Eu não quero mesmo ser essa pedra de gelo que é você. Aliás, pessoas assim sofrem tanto! Para que?
 E você foi chegando mais perto, perguntou se estava tudo bem, e eu quase chorando, disse:
- Não estou bem, sinto tanto a tua falta. (Maldita Sensibilidade!)
E você, com aquele olhar perdido no vazio, me fez perder totalmente as forças, quando disse:
- Eu também sinto a tua. Mas existem coisas que não podem ser, e nós somos uma delas. Mas quero que você nunca duvide do meu amor. Só quero que você entenda...
- Entender o quê? Interrompi irritada.  Não Consigo entender esse tipo de amor. Amar alguém é fugir dele? Como é isso?Medo?
E você calou covardemente. Não teve argumentos e eu desesperadamente tentei encontrar o que fui buscar ali. Tentei ler o teu olhar e ver o que havia escondido. Mas aquela sombra estava ali.
E então decididamente desisti de lutar. A gente cansa, sabe?
E existe em mim uma coisa que eu não consigo ser, é vítima da situação e nem vocação para  ficar num canto, esperando que você  tenha tempo de me dar atenção.
  Não sei juntar sentimentos ruins dentro do peito. Não sei ser esse oco que é você.
 Mas eu tentei... Tentei resgatar o que você tinha dentro desse teu peito fechado, frio e mofado. Mas não deu.
Reuni todo meu orgulho e ergui a cabeça.
E o que fiz foi matar a esperança, jogar fora a pazinha que eu usava para juntar os caquinhos do meu coração quando você o despedaçava.
Entrei no carro e parti. Não me restava mais nada a fazer ali.
Por um momento, tive a impressão de que você viria correndo atrás de mim. Pedir para que eu o perdoasse.
Mas foi apenas um devaneio, apenas um fio de vida em que a esperança teimava em se agarrar. Na Próxima, dou um tiro de calibre “Doze” nela, só para garantir.
Olhei no retrovisor e você estava lá. Parado, assistindo a minha partida. Um triste quadro de alguém que tem medo de ser feliz.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Só uma dose?



- Moço, me dá uma dose de desapego? Dose dupla, por favor!

Estou precisando “deslargar” das coisas que não me convém e, principalmente das coisas que não me fazem bem.
Eu sei. Tenho gênio de cão. Mas meu coração é de Maria mole, e tudo vira meu xodó.
Não tem àquela calça jeans “supermegavelha”? Então... Não consigo jogá-la fora. Já tentei tantas vezes, mas ela faz parte de tantos momentos que já vivi.
Ah, se ela falasse!
Mas ela fala, e toda vez que tento desapegar - me, ela me diz...
- Você vai ter coragem?
- Não, eu não tenho. Eu não seria capaz de jogar tantas lembranças fora.
- Mas moço. “Ele", eu tive coragem!
Sabe por quê? Ele não chega nem “nas barras” da minha velha calça que, aliás, já estão bem desfiadas.
Ele, é como erva daninha retirada de um jardim com lindas flores.
Ah... Isto sim, é algo que ninguém tem pena de arrancar.
- Moço, ele foi o meu melhor desapego. Tão fácil de decidir!
Nem foi preciso arrancar o meu coração, já acostumado viver fora do peito, ou vivendo apertado, sem um mínimo de conforto.
Cansei de esperar, cansei de ficar exigindo um pouco de atenção. Migalhas? Para quê? Eu não preciso.
Não me senti só quando peguei a estrada, afinal eu já estava acostumada a ser sozinha. Ele nunca estava quando eu precisava.
Por isso, na mala, eu carrego apenas a coragem, minha velha calça e nada mais que me lembre dele. Sigo meu caminho, eu assumo esta escolha, assumo a dor que sempre tive, mas que só agora admito.
Vou seguir meu caminho por aí... Começo agora a ser livre!
- Moço, quanto custa a garrafa de desapego? Vou levar, assim vou tomando uns goles pelo caminho.
– Ah, a ressaca? Esquenta não.
Ressaca é igual amor... Só se cura com outro.


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Do meu telhado.



A vida vista daqui de cima parece ser mais fácil.
Sinto - me grande e protegida de todas as maldades e não me importa se o dia está cinza, chorando algumas poucas lágrimas; ou se está vestido de azul com fios de ouro bordados pelo sol.
Daqui, posso ver a fragilidade das pessoas escondidas em sua gaiola imaginária.
Avisto ao longe, numa praça, crianças brincando despreocupadas, aproveitando os últimos anos de inocência.
Numa casa ali, outra aqui, assisto casais que brigam defendendo suas diferenças, romances apaixonados ou até mesmo proibidos.
Daqui de cima, o mundo à minha volta perde a privacidade, e todos que estão em sua gaiola mostram a verdadeira face.
Bisbilhotices à parte. Daqui do meu telhado, revivo o passado, revejo meus erros e sonho o futuro.
Escrevo meus versos, conto para as estrelas sobre meus medos e para a lua sobre minhas paixões impossíveis.
Choro as mágoas, decepções... E ninguém me dá conselhos que nunca irei seguir.
Aqui, na minha solidão de propósito, eu me encontro, provoco desencontros das coisas que não podem ser.
O meu telhado, que não é de vidro, faz com que eu tenha a lucidez da minha realidade, mas não me deixa perder a mania de sonhar.

• 88ª Edição Visual
Bloínquês

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O último Momento.


O céu já havia escurecido e as horas se arrastavam.

Através da fumaça do cigarro, Júlia olhava pela janela.

Lá de cima tudo era tão frágil.
As pessoas, os carros, a vida.

Olhou para frente e uma grande placa na sacada de uma varanda chamou-lhe a atenção.

MADAME LOLA
Tudo sobre seu futuro
Cartas, tarô, numerologia, etc.

Sentiu-se tentada em dar um “pulinho” lá, só para ver “qual era”. Será que ela acertaria alguns acontecimentos da sua vida? E o futuro, como seria?

-“Argh! Que besteira”. Pensou.

Para que saber afinal? Deixa tudo rolar.

O toque do celular fez com que ela saísse de seus devaneios. Olhou o visor, era ele.
- “Será que ele vai dizer que não vem?” – Pensou
Coração apertado, um peso no estômago, parecia que não existia o chão.

No quarto toque ela atendeu:

- Alô

- E aí está pronta?

- Sim e você? – Ela perguntou com medo da resposta.

- Estou aqui embaixo te esperando.

- Ah sim, desço num minuto.

Minuto? Voaria se pudesse.

Respirou fundo, despediu-se de Flávia, sua melhor amiga e desceu.
Quando saiu a rua, toda aquela fragilidade vista de cima voltou-se para Júlia.
Sentiu-se tão desprotegida, mas nada a faria voltar atrás. A vontade de vê-lo era maior. A saudade era insuportável.

Fazia tanto tempo...

Entrou no carro, olhou-o nos olhos e perdeu-se naquele olhar.

- “Como ele poderia ter esse poder?” Pensou.

Ela jamais conseguia dizer não diante daquele olhar azul.

-Verdes. Ele dizia.

Mas como? Será que até a cor, os olhos dele conseguiam mentir?
Azuis ou verdes, não importava, eram oceanos de promessas que certamente nunca seriam cumpridas. Ela sabia.
E toda aquela magia do momento, ela sentia no fundo da alma e tinha certeza de que ele também. Ele a queria. Ambos precisavam um do outro, mas tinham medo.

Incertezas, insegurança e outros sentimentos inexplicáveis os impediam.

- A vida sempre nos prega peças. – Júlia dizia a amiga enquanto estava na janela.

- Amiga, sai dessa, você merece algo muito melhor. Aconselhou Flávia.

Júlia sabia. Mas o que poderia ser melhor do que vivenciar aquele momento. Sentir aquela magia que existia entre os dois?


Júlia voltou a dizer à amiga.
- Amiga... Eu e ele somos almas gêmeas. Quando estamos juntos tudo é perfeito. Temos uma sintonia que poucos têm.  

O silêncio tomou conta da sala, a fumaça sumia no ar e não havia mais o que dizer para que ela voltasse atrás.
Não adiantava. Nada a faria desistir.

Júlia queria guardar o cheiro, o gosto, o toque. Queria levar consigo toda lembrança que pudesse ter.
Aqueles momentos, ela queria que fossem inesquecíveis.
Apesar de todo o amor, aquele seria o último encontro.
Ele não sabia, mas Júlia estava preparada para aquele momento.

Enquanto fitava o vazio, tirou o último cigarro do maço, amassou o papel e os seus olhos se encheram de lágrimas. Voltou - se para Flávia dizendo:

- Mas amiga, apesar disso, de sermos almas gêmeas, jamais ficaremos juntos. 
Pois nem sempre almas gêmeas ficam juntas entende? Mas só de saber que eu tenho a minha, isso me torna completa, serena e feliz. E a partir disto, eu tenho certeza que poderia fazer qualquer pessoa feliz.

Flávia a observava enquanto ela estava perdida nas lembranças, e pensava em como gostaria de ter a mesma certeza e chegou à conclusão de que não havia encontrado a tal alma gêmea. Se é que teria uma.

E quando viu Júlia sair, ficou pensando no quanto é importante saber amar. Saber separar a razão da emoção e principalmente amar a si mesmo. 

E aqueles momentos foram sim, inesquecíveis, mágicos para aqueles dois, e Júlia mostrou todo amor que podia, mesmo sabendo que nem todo amor poderia ser para sempre, mas que fosse intenso e verdadeiro enquanto pudesse durar.
Deu a ele o coração e alma. Mas aqueles momentos foram os últimos

E depois, o futuro?

Quem sabe uma consulta com Madame Lola, não possa nos responder?

                                               






85 ª  Edição Conto/História 

               Bloínquês